‘Capitalismo de cassino’ provoca crise

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Riscos em excesso assumidos por executivos de grandes empresas e fragilidade do governo dos Estados Unidos no controle do sistema financeiro arrasta mundo para crise.

Impressionadas com a demora do governo americano em resolver uma crise financeira interna que ameaças as fundações dos mercados globais, pessoas de todo o mundo responsabilizam os Estados Unidos pela situação.

Líderes nacionais e pessoas comuns afirmam que os Estados Unidos precisam solucionar rapidamente a crise financeira por eles criada antes que o resto do mundo perca os ganhos econômicos conquistados com dificuldade.

“Os gerentes das grandes empresas assumiram enormes riscos por pura ganância”, observou o presidente da Costa Rica, Oscar Arías, cuja economia é altamente dependente do comércio com os EUA. “O que acontece nos Estados Unidos afetará o mundo inteiro e, principalmente, países pequenos como o nosso.” Na Europa, onde muitos atribuem a crise ao “capitalismo de cassino” que se instalou profundamente de Nova York a Londres e Moscou, há uma sensação maior de responsabilidade compartilhada.

Mas os europeus também acusam o governo americano de ter permitido que a situação saísse de controle.

“Tudo isso começou lá”, diz Daniela Cirni, de 36 anos, uma funcionária da prefeitura de Roma. “As seguradores e os bancos italianos te pedem uma série de garantias. Nos Estados Unidos, segundo contaram amigos meus que trabalham lá, você simplesmente aparece com uma idéia, como querer fazer alguma coisa ou iniciar um novo negócio. É absurdo, mas se pode dizer que o ‘sonho americano’ é o ‘pesadelo americano’”, prossegue Daniela.

Em meio às duras críticríticas, ganha força o consenso de que uma regulamentação financeira mais estrita é necessária para impedir que o excesso de liberdade ao capitalismo destrua as economias ao redor do planeta - e que os Estados Unidos não possam mais determinar sozinhos as regras.

Mezat Oyena, um turco que tem uma barbearia no bairro berlinense de Mitte, afirma que a crise afetou seus negócios. “A crise financeira acontece nos Estados Unidos e todos nós estamos sentindo”, comenta.

“A América cria esse grande problema e não o conserta, mesmo que tudo esteja ficando pior. De agora em diante, eles terão de dividir a carga. Os americanos não serão mais os únicos no topo do sistema.” Os líderes das nações em desenvolvimento que mantiveram o cinto apertado e abriram suas economias em resposta à pressão americana advertem para outras conseqüências: a diminuição da influência global dos EUA e a probabilidade de as populações mais pobres serem as maiores vítimas dos maiores jogadores das finanças globais.

“Eles passaram as últimas três décadas dizendo que precisávamos fazer a nossa parte. Eles não fizeram a deles”, observou na última terça-feira o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Até mesmo fortes aliados dos EUA, como o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, criticaram Washington por instigar a especulação financeira fora de controle, o que comparou com um cavalo selvagem sem rédeas. “O mundo inteiro financiou os Estados Unidos e eu acredito que eles tenham uma dívida de reciprocidade com relação ao resto do mundo”, declarou ele.

Já no caso dos líderes europeus, é mais complicado apontar diretamente o dedo na direção dos Estados Unidos, pois muitos dos seus financistas participaram da onda de irresponsabilidade.

Londres foi a origem da divisão da falida seguradora American International Group (AIG), que amargou grandes perdas em swaps de default de crédito.

Além disso, diversas instituições financeiras européias respeitadas desconsideraram os riscos dos antes vantajosos ativos em subprime, o crédito imobiliário concedido para devedores de alto risco.

Mas a dificuldade encontrada pelo governo americano para fazer com que o Congresso dos EUA aprove um pacote de US$ 700 bilhões para socorrer o setor financeiro elevou o tom das críticas a Washington.

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, qualificou a “irresponsabilidade” do sistema financeiro norte-americano como culpada pela crise econômica. “Tudo ocorrendo agora nas esferas econômica e financeira começou nos Estados Unidos”, disse Putin. “Isso não é a irresponsabilidade de indivíduos específicos, mas a irresponsabilidade do sistema, que necessita de liderança”, completou.

Por sua vez, a chanceler alemã, Angela Merkel, qualificou o pacote como uma “precondição para que se volte a criar confiança nos mercados”.

Numa declaração de dureza incomum, o porta-voz da Comissão Européia, Johannes Laitenberger, disse: “Os Estados Unidos precisam assumir sua responsabilidade pela situação, devem demonstrar liderança pelo bem de seu próprio país e pelo bem do mundo”.

A crise deu força a vozes na França e na Alemanha que exigem da UE a imposição de controles mais rigorosos para eliminar os mercados financeiros altamente desregulados, apesar das objeções da Grã-Bretanha, que ao lado dos EUA é considerada por muitos como palco de uma forma ainda mais livre de “capitalismo anglosaxônico”.

“A crise expõe os excessos e as incertezas de um capitalismo de cassino que tem apenas uma lógica: encher os bolsos”, denunciou o deputado alemão Martin Schulz, presidente da bancada socialista no Parlamento Europeu.

“Isso também demonstra a falência do capitalismo selvagem, que não investe em companhias e em geração de empregos, mas apenas em fazer dinheiro através do próprio dinheiro de uma forma totalmente descontrolada.” Em muitos países em desenvolvimento, o fato de os EUA não terem aplicado as regras que poderiam ter impedido a crise é visto como uma forma de traição, especialmente por causa da ampla pressão americana para que essas nações abrissem suas economias.

Em grande parte desses países, empresas estatais foram privatizadas, adotaram política cambial flexível e apertaram os cintos para reduzir o endividamento.

Agora, a escassez de crédito coloca em risco os benefícios obtidos a duras penas.

“Não me parece justo que aqueles que enfrentaram a fome no século 20, que começaram a melhorar no século 21, sofram agora por causa do sistema financeiro internacional”, disse Lula. “Muita gente no mundo vai passar fome.” Pouco antes de reunir-se com Lula no decorrer da semana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse acreditar que uma nova ordem econômica esteja prestes a se instalar.

“Culpar quem? O imperialismo, os Estados Unidos, a irresponsabilidade do governo americano”, disse Chávez, um notório crítico dos EUA. “Dessa crise, uma nova ordem mundial tem de emergir, e isso significa um mundo multipolar.” E quem pode ganhar muita influência a partir dessa crise é a China, que muito investiu na dívida americana. Pequim já vinha pedindo novos sistemas de regulação dos mercados financeiros.

Liu Mingkand, presidente da Comissão de Regulação do Sistema Bancário da China, disse na semana passada, antes do início de um feriado no país, que o endividamento alcançou níveis perigosos e indefensáveis tanto nos EUA quanto em outros países.

O resto do mundo está percebendo. Diversos jornais fizeram referência à crescente importância da China em meio à atual crise nos EUA. Na Argélia, o jornal El-Watan publicou uma charge na qual o Tio Sam rezava, “Nos salve”, dizia ele, ajoelhado diante de um retrato de Mao Tsé-tung.

Fonte da notíciaAlan Clendenning - Associated Press - 05/10/2008
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